Uma moto, Muitos caminhos…

Viagens de moto. Dicas de viagens off roadJaneiro/15, em Parque Estadual do Biribiri, Diamantina MG

Outro dia assisti a um vídeo de um colega do Facebook. De alguma maneira que jamais conseguirei descrever, me identifiquei com aquelas imagens. Não porque tenha passado por situações semelhantes, mas porque, cada um em seu estilo, acho que passear de moto tem para nós dois (e, acredito, para boa parte dos motociclistas) o mesmo significado, o que ficou bem ilustrado nesse filme.

 

Viagens de moto. Dicas de viagens off road

Parque Estadual do Biribiri, Diamantina MG

 

Nós chamamos o autor, Rafael Barata, para um bate-papo. Uma pessoa que sem dúvida alguma tem muito a acrescentar a todos nós que passamos o tempo contando os minutos para poder ligar os motores e sentir aquele vento maravilhoso com cheiro de poeira das estradas.

Às pessoas que têm receio de se aventurar por aí… Leiam a entrevista!

 

 “… pare de pensar que o medo é saudável, viva, explore, corra riscos, conheça novos “mundos” e pontos de vista; assim como no motociclismo em que a felicidade está no caminho e não na chegada, na vida, a felicidade está na busca e não na descoberta.” (Rafael de F. Barata)

 

Viagens de moto. Dicas de viagens radicais. Moto atravessando o rio

Fazenda Saco Novo, em Curvelo, ago. 2014

 

Rafael Barata é mineiro, advogado, tem 36 anos, ainda muito jovem no mundo das duas rodas (começou a viajar em 2009, 2010 quando comprou a sua segunda moto, uma 300cc), mas um motociclista que sem dúvida foi infectado pelo vírus das aventuras e viagens de moto.

 

Rafael, Fale um pouco sobre você e o grupo que costuma te acompanhar nas aventuras.

Claro que tenho bons amigos (são poucos os que considero realmente bons) fora do “círculo motociclístico”, mas afirmo com segurança que a maior parte deles conheci por causa das motos.

Desde criança me interessava por motos por causa do apelo visual e, confesso, pelo “status” que as mesmas proporcionam, mas hoje isso veio a mudar e me interesso muito mais pelo prazer que elas me proporcionam.  Minha primeira moto (uma “cub” 100cc) adquiri juntamente com minha esposa (namorada,na época) em 2007 através de consórcio, para que ela usasse durante a semana para trabalhar e eu, nos finais de semana e feriados, para lazer (ir à locadora, padaria, etc.).

O interesse foi aumentando e a vontade de ter uma moto “grande” e potente foi tomando conta de mim… Vendi a “cub” e adquiri, novamente por consórcio, uma 300cc. Foi quando comecei a me interessar por “encontros”(interesse que também mudou/diminuiu, com o passar do tempo) e por viagens, tendo feito algumas sem maiores pretensões pela região onde moro, inclusive com a esposa na garupa.

À medida que a situação financeira foi melhorando, pude adquirir motos mais potentes e, assim, em 2010 vendi a 300cc e comprei uma de 900cc, que mantenho até hoje. A partir daí, e impulsionado pelas revistas especializadas, comecei a me interessar por longas viagens, e comecei a sonhar com uma viagem de moto internacional, especificamente, a região do Atacama.

 

Viagem de moto. Viagem de moto pelo Peru, América deo Sul

Paso Abra Pirhuayani, Peru

 

Conheci o hoje grande amigo Rômulo Provetti (autor do site Viagemdemoto.com e do livro “A Caminho do Céu”, que já tinha feito duas viagens internacionais na época) e nas conversas com ele o sonho foi tomando forma.

Em 2012, precisamente em maio, falei do sonho de ir de moto ao Atacama e convidei o amigo Márcio Vasconcelos (que era apenas conhecido, na época), para ir comigo em setembro do mesmo ano. Ele topou “de cara” e começamos os preparativos, traçando rotas no Google e em mapas impressos, pesquisando informações e lendo matérias à respeito; nada muito metódico, mais para colher informações. Quando foi se aproximando a data marcada para a viagem (7 de setembro), o irmão desse amigo, Maurílio, aderiu à dupla e, na última semana, o namorado da sobrinha deles, Duílio Camilo, também resolveu ir, formando um quarteto. Márcio e Duílio se tornaram grandes amigos depois dessa aventura!

Fizemos apenas uma reunião entre os quatro (eu e o Márcio já havíamos feito outras antes) e na data marcada partimos.

Foi uma viagem incrível (acho que a melhor da minha vida) e os detalhes dela estão no blog (Expedição Atacama) ou em álbum de fotos no meu perfil no “Facebook”, com o título “Quatro Amigos e um Destino”.

 

Viagens de moto. Viagem de moto pelo Deserto do Atacama

Quatro Amigos e um Destino – EXPEDIÇÃO ATACAMA – set. 2012

 

 

Quando chegamos do Atacama já havíamos sido infectados pelo vírus das longas viagens de moto, muito comum nos Andes, então, mal havíamos retornado e eu e o Duílio já começamos a programar outra, desta vez, para Peru (Machu Picchu) e Bolívia (Estrada da Morte), também disponível no blog e no “Face” com o título “Expedição 6 Fronteiras”.

A partir daí, a coisa não parou mais e eu estou sempre planejando longas viagens para o futuro, minha meta era fazer pelo menos uma por ano, mas devido ao nascimento de minha filha mais nova, neste ano de 2014, quando eu iria para Ushuaia, “dei um tempo”, mas 2015 me aguarda. Este ano tenho 2 projetos, um pela América do Sul e outro pela Ásia, ainda em desenvolvimento. Talvez eu não concretize os dois, mas pelo menos um “sairá” do papel.

 

Viagens de moto. Dicas de viagem em Minas Geraisl

Estrada Real/Caminho dos Diamantes, final de 2014,

 

Que tipo de viagem você gosta mais? Off road? On road? Fale um pouco sobre isso…:

Não tenho preferência, gosto de andar de moto, ver belas paisagens e conhecer gente. Às vezes manifesto maior interesse pelo off road, mas não é que eu prefira estradas de terra, apenas acho, parafraseando Roberto Atobá e outros que já disseram algo parecido, que “os piores caminhos levam aos melhores lugares”. Em longas viagens, prefiro asfalto, com curtos trechos off road para aumentar a adrenalina, mas em viagens curtas, não faço distinção, reiterando que acredito que a maioria das paisagens mais bonitas e intocadas só são acessadas por estradas de terra. Como na “minha” região tem muita, eu me esbaldo.

 

Qual a diferença, para você, entre realizar uma viagem longa ou uma curta?

O que me atrai nas longas viagens é justamente o enriquecimento cultural, possibilidade de conhecer povos e culturas bem distintas da nossa, além do desafio pessoal de ter feito algo extraordinário (um pouco de vaidade não faz mal à ninguém), algo fora dos padrões – apesar de estar  aumentando muito o número de pessoas que o fazem, ainda é bem reduzido o contingente que se “atreve” a pegar uma moto e percorrer tanta distância por lugares desconhecidos e, às vezes, inóspitos ou hostis. Mas não desmereço as viagens curtas e acho que nelas também é possível boa expansão da consciência, e tenho tido muito prazer em “descobrir” Minas Gerais nas viagens que faço pela região, onde procuro (sem compromisso pedagógico) conhecer a história do local e atrativos, além de eventuais costumes que diferenciem o lugar. Interesso-me muito pela História e estórias do lugar que visito.

 

Aqui, antes de prosseguir com a entrevista, vou colocar o filme que tanto chamou minha atenção… Assim você terá oportunidade de entender um pouco mais do entusiasmo e da ousadia do Rafael…

 

 

Onde são essas pontes que estão no filme?

Na ordem cronológica em que aparecem:

1- Foto em preto e branco na abertura do vídeo: antiga ponte férrea da Ferrovia Centro Atlântica(hoje desativada para trens) entre Monjolos e Rodeador (MG), sobre o Rio Pardinho;

2 – Vídeo da ponte férrea (ainda em atividade) da FCA em Curvelo, sobre o ribeirão Santo Antônio (passei porque sei do horário que as composições trafegam);

3 – Vídeo da ponte (pinguela) de madeira sustentada por cabos de aço entre Marcapata e Cuzco, no Peru. Aqui abro um parêntese para contar a história que fala um pouco mais de mim também. Nas viagens em grupo, gosto sempre de ser o último do comboio para ter maior “controle” sobre as atitudes dos demais membros do grupo, para fotografar os amigos e para prestar eventual auxílio a quem porventura ficar para trás, como já aconteceu diversas vezes, inclusive nessa viagem, em que o grupo não viu que um dos membros teve problemas e seguiu, restando somente a mim a tarefa de ajudar o amigo. Pois bem, estávamos subindo (à uma média de 70/80km/h) a Cordilheira dos Andes (lugar mais incrível que já trafeguei de moto) pelo Paso Abra Pirhuayani, eu por último como de hábito, quando avistei essa ponte, que não ficava no nosso caminho, apenas ligava a estrada em que trafegávamos a algum povoado “qualquer”. Como gosto especialmente de pontes (não sei explicar o motivo da atração por elas, talvez simplesmente pelo desafio) e subíamos a um ritmo não muito acelerado, fiz meia volta apenas para filmar e fotografar minha travessia pela ponte utilizando a câmera do capacete, para que houvesse tempo hábil de retornar e alcançar o restante do grupo. Foi o que aconteceu. O vídeo não mostra com fidelidade, mas a ponte era meio solta, já que alguns cabos de aço laterais estavam arrebentados e era muito alto. Lá embaixo passa o rio que margeia a estrada de ferro que leva turistas à Águas Calientes/Machu Picchu;

4 – video da travessia da “pinguela” que dá acesso à Cachoeira dos Cristais, no Parque Estadual de Biribiri (Diamantina). Os amigos e companheiros de viagem não quiseram atravessá-la de moto, mas não achei que houve risco, só não tinha lugar para virar a moto depois, para retornar, foi um sufoco. Acho que é o rio Jequitinhonha que passa embaixo e tb é bem alto, embora não dê para ver pelo vídeo.

5 – Foto mesma ponte da primeira imagem, sobre o rio Pardinho.

6 – Foto de uma pequena ponte de madeira na chegada a Conselheiro Mata, distrito de Diamantina/MG

7 – Ponte Marechal Hermes sobre o rio Sao Francisco, ligando Pirapora a Buritizeiro. Essa ponte tem muita história (vide Wikipedia) e é bem longa, com 692 m de comprimento, estando hoje desativada para tráfego de veículos (somente veículos leves são tolerados, embora a permissão seja só para pedestres e bicicletas).

8 – Foto da pequena ponte/mata-burros que dá acesso à Cachoeira do Telésforo, em Conselheiro Mata

9 – Foto de uma das minhas favoritas, uma ponte antiga sobre o Rio Jequitinhonha, na Estrada Real (Caminho dos Diamantes), entre Val e São Gonçalo do Rio das Pedras. No site oficial da Estrada Real consta a informação de que essa ponte é do séc. XVIII, mas é pouco provável devido à estrutura da ponte ser de concreto armado e este só ter sido desenvolvido à partir do fim do séx. XIX e início do XX;

10 – Foto da ponte para um só veículo em estradas de terra pela região de N. Senhora da Glória, zona rural de Curvelo/MG;

11 – Foto da mesma ponte do video do número 3 acima.

 

 

Pelos seus vídeos percebemos que você gosta de desafios… É isso mesmo?

Acho que gosto mesmo de desafios, mas não os procuro nem considero os que enfrento como sendo situações de risco elevado, só trafego por uma ponte, estrada ou por dentro de um riacho se estiver me sentindo absolutamente seguro. Mas também não nego que por vezes eu passe por caminhos desnecessários só pelo prazer da adrenalina

 

Viagens de moto. Viagem de moto pelo Deserto do Atacama

 

 

Sobre a experiência como motociclista ou motoqueiro (não considero depreciativo este último adjetivo), como dito anteriormente, comecei em 2007, quando já tinha 28 anos (antes disso, só bike), e antes me interessava mais pelo status do que pelo prazer proporcionado pelas motos, por isso, meu interesse era pelas esportivas. Cheguei a ter uma por quase dois anos, na qual minha esposa inclusive me acompanhava pilotando-a em curtas viagens, mas logo depois meu interesse mudou e passei a gostar mais das motos voltadas especificamente para viagens, embora eu considere que toda moto sirva para qualquer tipo de viagem (depende é da disposição de quem a conduz), como modelos custom ou duplo propósito/big trail, como alguns preferem chamar. Mas não me prendo a nenhum estilo ou modelo, a preferência se deve à versatilidade, pois gosto verdadeiramente de qualquer tipo de moto, independente da marca, ano ou cilindrada. Na verdade, sou saudosista e tenho até uma certa predileção pelas antigas. Portanto, o que determinou a escolha da minha moto atual não foi a marca nem o ano e sim o propósito para o qual eu a usaria e o custo benefício dentro da minha disponibilidade financeira na ocasião.

 

Viagens de moto. Lindas paisagens em montanhas pela América do Sul

Yungas Road(Estrada da Morte), Bolívia, set. 2013

 

Vamos falar então um pouco sobre os medos e inseguranças e o que te move a buscar essas emoções mais extremas (falo isso porque não me imagino atravessando algumas daquelas pontes do filme…).

Aqui vou citar um texto, de minha autoria, que está disponível no meu blog… Só complementando de forma muito espontânea que o motociclismo ou o “andar de moto”, como eu prefiro dizer, é um pouco mais que um hobby, é uma terapia intensiva contra o estresse/depressão, é uma forma de expansão da consciência, uma “fuga”. Não sei conceituar o termo, só sei que me sinto muito bem e feliz “andando de moto”.

 

O MEDO DO DESCONHECIDO – Desabafo:

É incrível como tantos motociclistas se imaginam e/ou se pintam como “radicais”, “aventureiros” e se revelam(a si próprios, inclusive) tão “covardes” (desculpem o termo incisivo).

Um amigo me pediu opiniões e dicas sobre a Bolívia (e as obteve, juntamente com meu incentivo), para onde pretendia realizar uma viagem de moto em breve, mas acabou desencorajado por opiniões contrárias.

Normalmente, não me incomodo com isso, sou maduro o suficiente para entender que opiniões variam, podem mudar, e tendem mesmo à divergência, em qualquer discussão ou assunto, inclusive na política, já que, aliás, vivemos em uma democracia. Não seria diferente no motociclismo. Mas o que me incomoda é que muitas dessas opiniões contrárias são emitidas e propagadas sem conhecimento de causa, por puro medo do desconhecido, por “ouvir dizer”. Ressalto que não estou generalizando, mas é preciso acabar com esse medo do desconhecido (inclusive na política e em outros temas do cotidiano) e com a disseminação dessa idéia de que (…)”é perigoso, arriscado, não vá”(…), e até mesmo de que “o medo é saudável”, sem que se tenha efetivamente vivenciado uma situação concreta de perigo, isso também é PRÉ-CONCEITO, no sentido estrito do termo.
Também não sou tolo a ponto de dizer sobre qualquer lugar ou empreitada (em sentido amplo) que este seja plenamente seguro (a violência existe em todos os lugares, nuns mais acentuadamente, noutros menos, e as estatísticas e notícias estão aí para ilustrar), mas por experiência própria, sem me gabar, posso atestar que estive na Bolívia (embora uma só vez, por enquanto), onde percorri de moto cerca de 800km, por estradas boas e ruins, grandes cidades e periferias, pequenas cidades e povoados, alguns trechos inclusive à noite, outros só (por cerca de 80km quando me “desgarrei” dos companheiros), sempre em total segurança. Resumindo, tomados alguns cuidados básicos (que não cabe citar aqui), podemos viajar de moto, carro, à pé ou em qualquer outro meio de transporte para qualquer lugar do mundo, como divertidamente já nos ensinaram em suas obras, grandes aventureiros que “rodaram” o Mundo sobre uma moto, como Marcelo Leite, Raphael Karan, Thiago Ramon Peretti, João Batista de Lima, dentre outros.
E para finalizar esse extenso e enfadonho desabafo, encerro com a célebre frase (li em algum lugar aqui no VMAS) de Alexander Graham Bell: “Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram” e com uma “dica”: pare de pensar que o medo é saudável. Viva, explore, corra riscos, conheça novos “mundos” e pontos de vista! Assim como no motociclismo, em que a felicidade está no caminho, e não na chegada, na vida, a felicidade está na busca, e não na descoberta.
Rafael de F. Barata

 

 

Para finalizar, o Rafael indica alguns livros que possui em sua biblioteca, sendo o primeiro e o último os melhores, na sua opinião.

 

“O Mundo Sobre Duas Rodas”, de Thiago Peretti

“Projeto 5 Continentes”, de Raphael Karan

“Estrada para os Sonhos”, de Marcelo Leite

“Volta Completa de Moto(ao Mundo)”, de João Batista Pires

“Ushuaia”, de Arthur Albuquerque

“A Caminho do Céu”, de Rômulo Provetti

“Aventura Sobre Duas Rodas”, de Elson Gehlen

“Vida Nômade”, de Robison Portioli

 

 

Créditos das fotografias: Rafael de F. Barata. 

Caso você queira utilizar as imagens, favor entrar em contato direto com o fotógrafo através dos endereços abaixo.

 

Bom, espero que você tenha se animado tanto quanto eu…

Deixo aqui os endereços de onde encontrar o Rafael Barata na internet… Não deixe de conhecer o blog dele, ver as fotos, curtir os vídeos… 

BLOG: http://moto-trips.blogspot.com.br/

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCDjQvj20JbX_GdWl_it8lww

About the author

Heloisa Gaspar

Analista de SEO por profissão. Motociclista por opção...

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